AS UPP´s e a EDUCAÇÃO - PARTE II

Dia desses coloquei um post falando das relação entre as UPP´s e um possível melhoria da educação. Você pode ler mais acessando o link: http://zaraio.blogspot.com/2010/04/as-upps-e-educacao.html. Querendo saber a opinião de quem entende do assunto e vive o dia-a-dia da educação, pedi a opinião de um professor, que é pessoa altamente crítica e pensante, não somente neste tema como também em vários outros. Além de ser meu primo. Ele me presenteou com o seguinte artigo que resolvi transformar em post. Parece um texto grande, mas a leitura é bastante interessante e envolvente porque relata com clareza as mazelas da educação pública.

Sobre a violência na sala

Um dia estava assistindo a um documentário sobre policiais de NY e pesquisadores os atrelavam à chamada síndrome do Super-man. Os caras vivem diariamente situações tão perigosas que, inconscientemente, desenvolvem um comportamento incompatível com o de uma pessoa normal. O resultado é que a situação de perigo é tão grande que para conseguir efetuar o seu (o deles) trabalho, os policiais não podem acreditar que algo pode dar errado. Desta forma, os caras acabam por se expor cada vez mais.Professor que está em sala de aula não pode ter medo de bandido, quem tem medo mete o pé, quem fica, sei lá o porquê, acredita que vai conseguir sempre lidar com o problema. Como os policiais, acreditamos que não podemos ser atingidos, ninguém no seu juízo perfeito vai dar esporro em um traficante na frente dos seus amigos (ninguém precisa me dar conselho, sei que tenho uma filha), mas quando estou em sala de aula me transformo em outra pessoa e simplesmente faço o que tem de ser feito.Mal comparando, é como aqueles filmes de prisão em que se você quiser viver deve aprender as linguagens e os códigos, no caso da sala de aula, utilizar os códigos deles para criar os seus, se conseguir isso, você vive. O que estressa mesmo é falar a linguagem deles para ser respeitado, tenho que ser agressivo, gritar o tempo todo e a regra é o autoritarismo.O que estressa mesmo e saber que o perigo está ali o tempo todo, mesmo quando tudo vai bem. As rixas dentro de uma sala de aula existem mesmo que vc não as perceba, seja com o professor ou entre os alunos, haverá sempre uma violência latente. Meus maiores estresses dentro de sala de aula vieram depois de aparente calmaria, a turma está respondendo, todos estão sentados e aí “buuuum” (não é o fato de um tigre estar dando a patinha para o treinador que o transforma em gatinho, se não houver um acidente, não será mérito do tigre). Ainda fico surpreso como a porrada (socos) estanca em menos de 10 seg. Para eles, isso é normal, para nós loucura (sugiro ver o filme “Escritores de Liberdade”). Os alunos não são muito mais violentos com os professores do que são entre eles mesmos. Estão acostumados a agredir e não têm porque excluir os professores de seu rol de "vítimas" (eles não veem assim, não têm ideia de que estão agredindo ninguém porque é essa a linguagem).É como dirigir em uma estrada em que vc presencia pelo menos 3 acidentes por dia e tem de guinar o seu carro para não fazer parte deles, a guinada não estressa porque vc faz o que precisa ser feito sem pensar, mas saber que está dirigindo em uma estrada à noite em uma pista esburacada e sem sinalização cheia de maus motoristas é que é f...

Sobre as UPPs

Acredito que tráfico tem grande influência, porque ele ajuda a criar a linguagem e a ideia deturpada de justiça e dos caminhos que se deve seguir para alcançá-la. Mas acho também que é cultural, tanto do ponto de vista da clientela quanto dos que têm poder para mudar, ou seja, os políticos. O Brizola tentou mudar isso, foi crucificado. Não estou babando o ovo (até mesmo porque odeio populismo e sei que ele não era santo). O projeto dos Brizolões tem erros (salas abertas, por exemplo), isso é fato. Mas tinha tudo para dar certo, os sucessores poderiam ter resolvido os pequenos problemas que não foram previstos no projeto inicial.As diretoras (maioria é fêmea, não precisa ter curso superior algumas chegando a ter menos estudos que os alunos da própria instituição) são sempre indicadas por políticos ou "eleitas" (a urna dorme no colégio, fala sério).
Há desvio de merenda, gasto do dinheiro do Fundeb em palestras medíocres que chegam a custar 5 mil reais, desvio de dinheiro para campanha (aulas extras que só existem no papel), diretores que trocam favores ilegais entre si; se colégio não desse dinheiro para político não existiriam tantos.Os dirigentes de turno são semi-analfabetos ... Criticam os alunos que não estudam, mas verbalizam suas ordens e comunicados com frases que passam longe do português. Em sua educação de base, o Brasil absorveu mal a visão das instituições americanas, que ao contrário do que é divulgado pelos meios de comunicação, não é um exemplo a ser seguido internacionalmente. Apesar de a maioria dos americanos terem acesso aos estudos, na prática, isso não faz deles um povo genuinamente culto (na verdade, o americano médio está longe disso) porque eles têm uma visão prática das coisas. Lá, também não é comum estudar para ser culto ou porque acha que é legal ser e sim para arrumar um emprego, logo todos saem ganhando, seja o país ou o trabalhador. Pode-se até argumentar que os caras são recordistas em números relativos à educação superior, mas o conceito que eles possuem de curso superior é completamente diferente do nosso e também da Europeia. Os caras possuem o maior museu do mundo e certamente a maior faculdade também (eles devem até se ressentir de não serem os “primeiros” a construir as Pirâmides de Quéops), mas isso não quer dizer que sejam cultos. De forma geral, possuem uma graduação muito mais especializada que a nossa, geralmente ministrada em auditórios lotados onde se ensina de moda à gastronomia. Essa diferença se dá porque neste nível do ensino a construção que adotamos se aproxima da européia.
A união da educação americana com um conteúdo intelectualizado caramelizado com o jeitinho brasileiro deu origem ao que se chamou de macdonaldização de educação, um verdadeiro fiasco. Lembro que, no Brasil, Fast Food tem fila e é caro. Inovamos e vendemos a nossas crianças a “Fast Buchada de Bode da Educação”, nada mais Tabajara, mas não podia mesmo dar certo.
Para os problemas na sala de aula terminarem teremos que fazer uma verdadeira revolução educacional, Deus queira que ela seja iniciada com as UPPs. Mas acredito que a violência na sala de aula é produto de dois binômios: o tráfico e a falta de respeito às instituições educacionais que por vezes, é gerado até mesmo por leis, pois todos têm direito à educação. Acho lindo isso, mas como vc se sentiria se um aluno batesse em um amigo ou até mesmo em você e tivesse direito a matrícula dele renovada ao final do ano letivo. Os alunos se inscrevem em vários colégios ao mesmo tempo para garantir vaga naquele que seja mais próximo de casa. Isso promove o descaso. Se um aluno repete 40 anos consecutivos porque abandonou as aulas pode se escrever a quadragésima primeira. Aluno que passa de ano perde a bolsa família mais rápido, tudo parece ter sido feito para dar errado. Além disso, a mão-de-obra que está faltando, na construção civil, por exemplo, é a especializada, se a evasão diminuir e mais pessoas das comunidades se formarem, haverá mais do mesmo, e isso não vai suprir a carência do mercado porque os alunos apenas terão aprendido a entender o que lêem (frases e textos simples) ou serão capazes de encher o nosso tanque porque saberão contar o suficiente para receber o dinheiro, não se trata de terem alcançado capacidade para desenvolver um raciocínio técnico (do jeito que a educação está, no geral, quem se forma na 8a série, tem menos chance de ficar sem sustento, somente porque demonstra ter conseguido socializar-se o suficiente para terminar os estudos, como por exemplo, conseguir pedir obrigado e desculpas, além de não abandonar as aulas antes do término do ano letivo). Veja bem, não estou dizendo que não sai gente boa da comunidade, estou dizendo que quem é bom em meio a tudo isto, mesmo na comunidade, já está empregado. Os melhores professores estão nas favelas e para bom entendedor pingo é letra.Enquanto os políticos não mudarem a visão que possuem da educação, os alunos (em regra) não o farão também, isso não tem nada a ver com tráfico e a violência que ele gera. Demorei muito para admitir isso (acreditava que a educação poderia mudar esse país), mas agora acho que vai dar muito trabalho para mudar esse quadro.

Felipe Guimarães Silva

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